Oscar 2018 – Previsão dos indicados

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Amanhã (23/01) serão anunciados todos os indicados ao Oscar, ocasião que é, para mim, a mais empolgante de toda a temporada – uma montanha-russa de adrenalina ao acompanhar e assimilar, em cinco minutos, as inclusões-surpresa, as esnobadas… Enfim, é a concretização daquilo que se especulou por meses e meses. Seguem aqui minhas previsões das principais categorias, com os candidatos sendo listados em ordem de probabilidade de conseguir a indicação.

FILME

Três Anúncios para um Crime

A Forma da Água

Lady Bird – A Hora de Voar

Dunkirk

Corra!

Me Chame pelo Seu Nome

The Post – A Guerra Secreta

Eu, Tonya

Projeto Flórida

Lembrando que nesta categoria o número de indicados pode ir de 5 a 10 – embora, desde que este sistema foi implantado, o número de indicados nunca chegou a 10. Como o ano cinematográfico de 2017 me pareceu particularmente forte, vou ficar em 9. A meu ver, os próximos da lista são: O Destino de uma Nação, Trama Fantasma e Blade Runner 2049. Doentes de Amor, A Grande Jogada e Mulher-Maravilha conseguiram a indicação do Sindicato dos Produtores (que é o maior termômetro para esta categoria), mas acho que eles tem poucas chances aqui. 

DIREÇÃO

Guillermo del Toro (A Forma da Água)

Greta Gerwig (Lady Bird – A Hora de Voar)

Martin McDonagh (Três Anúncios para um Crime)

Christopher Nolan (Dunkirk)

Jordan Peele (Corra!)

Já era o consenso antes e ficou ainda mais quando foi confirmado pelas indicações do Sindicato dos Diretores. Mas Steven Spielberg (The Post – A Guerra Secreta) e Luca Guadagnino (Me Chame pelo Seu Nome) também são possibilidades. E votos de paixão frequentemente fazem candidatos acontecerem nesta categoria – beneficiando, neste caso, Sean Baker (Projeto Flórida) e Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma).

ATRIZ

Frances McDormand (Três Anúncios para um Crime)

Sally Hawkins (A Forma da Água)

Saoirse Ronan (Lady Bird – A Hora de Voar)

Margot Robbie (Eu, Tonya)

Meryl Streep (The Post – A Guerra Secreta)

Você vê a solidez da categoria quando Meryl Streep está na quinta posição. Nesta categoria também temos um consenso forte, mais difícil de ser quebrado do que em Melhor Direção. Mas, se se alguma surpresa acontecer, ela virá na forma de Jessica Chastain (A Grande Jogada), Michelle Williams (Todo o Dinheiro do Mundo) ou Judi Dench (Victoria e Abdul).

ATOR

Gary Oldman (O Destino de uma Nação)

Timothée Chalamet (Me Chame pelo Seu Nome)

Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)

Daniel Kaluuya (Corra!)

Tom Hanks (The Post – A Guerra Secreta)

James Franco (O Artista do Desastre) ocupa a sexta posição, e o deixei de fora não apenas pelas acusações de assédio que recebeu no período de votação, mas porque acho que a Academia vai querer recompensar Hanks pelas esnobadas dos últimos anos. Acho muito improvável, mas consigo ver cenários em que um dos Daniels é esnobado. A questão é que as opções restantes são escassas: Denzel Washington (Roman J. Israel, Esq.) e, se puxarmos muito, Jake Gyllenhaal (O Que te Faz Mais Forte).

ATRIZ COADJUVANTE

Allison Janney (Eu, Tonya)

Laurie Metcalf (Lady Bird – A Hora de Voar)

Octavia Spencer (A Forma da Água)

Hong Chau (Pequena Grande Vida)

Lesley Manville (Trama Fantasma)

Categoria complicada. Apenas Janney e Metcalf são certezas. As outras vagas estão entre cinco candidatas: as três citadas na previsão + Holly Hunter (Doentes de Amor) e Mary J. Blige (Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississippi). Estou fazendo uma aposta arriscada, principalmente ao colocar Manville, mas quando a categoria está fluida desta forma, surpresas acontecem.

ATOR COADJUVANTE

Sam Rockwell (Três Anúncios para um Crime)

Willem Dafoe (Projeto Flórida)

Richard Jenkins (A Forma da Água)

Michael Stuhlbarg (Me Chame pelo Seu Nome)

Christopher Plummer (Todo o Dinheiro do Mundo)

Mesmo tendo sido omitido pelo Globo de Ouro, SAG e BAFTA, estou confiante que Stuhlbarg consegue entrar: além de ter uma cena marcante no filme, ele está em três prováveis indicados a Melhor Filme – além do filme de Guadagnino, ele também faz parte do elenco de A Forma da Água e The Post – A Guerra Secreta. Woody Harrelson (Três Anúncios para um Crime) e Armie Hammer (Meu Chame pelo Seu Nome) também concorrem com força aqui.

ROTEIRO ORIGINAL

Lady Bird – A Hora de Voar

Três Anúncios para um Crime

Corra!

A Forma da Água

The Post – A Guerra Secreta

Mas Eu, Tonya e Doentes de Amor estão na cola para abocanhar uma vaga. Também consigo ver Trama Fantasma surpreendendo aqui. 

ROTEIRO ADAPTADO

Me Chame pelo Seu Nome

A Grande Jogada

O Artista do Desastre

Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississippi

Logan

Categoria muito aberta. Depois de Me Chame pelo Seu Nome, que é a única real certeza aqui, tudo pode acontecer. Vou apostar na mesma lista de indicados do Sindicato dos Roteiristas. Filmes que fazem parte do cardápio de possibilidades: Todo o Dinheiro do Mundo, O Estranho que Nós Amávamos, Blade Runner 2049, Mulher Maravilha, Z: A Cidade Perdida.

É isso. Amanhã conferimos o resultado!

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Crítica: 120 Batimentos por Minuto (120 battements par minute)

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2017. Direção: Robin Campillo.

“Prefiro pensar que ele está vivo”, revela um personagem sobre um ex-namorado, soropositivo, que ele não vê há tempos e cujo destino desconhece. “Não. Ou estamos mortos ou estamos vivos”, rebate outro, este próprio portador do vírus HIV. É justamente essa objetividade para com a realidade que pauta as atividades do Act Up Paris, grupo ativista dos direitos dos portadores de AIDS, que é retratado aqui no filme de Robin Campillo, no início dos anos 90, auge da epidemia da doença, e quando ainda se engatinhava em termos de informações e tratamentos.

Espelhando os procedimentos da instituição que retrata, a execução deste 120 Batimentos por Minuto segue uma linha pragmática, e, desta forma, acompanhamos a rotina da Act Up – suas reuniões, debates (e as pautas são muitas durante todo o filme), planejamentos e ações – com uma fluência realista, desprovida de floreios. Trata-se de uma exposição quase documental, como se nos fosse permitido, de fato, entrar naquela sala de reuniões – e, ao assistir, em um momento, o grupo se divertindo ao colher sugestões para um slogan, e, em outro, embates se formando em torno de ideias divergentes – uma familiaridade com os membros do grupo vai se estabelecendo naturalmente.

Não obstante, dois personagens, em particular, começam a tomar foco narrativo: o tímido Nathan (Arnaud Valois), que acaba de ingressar na Act Up, e o extrovertido e enérgico Sean (Nahuel Perez Biscayart), membro mais antigo da mesma. É louvável como o filme estabelece a relação deles de modo casual, sem a necessidade de criar um arco romântico específico: assim, de um beijo fortuito, a um flerte na balada, a atração se consolida. E a cena de sexo é muito bem construída, evocando um forte clima de intimidade através da ambientação escura (em contraste à luz clara chapada das reuniões do coletivo), bem como ao lançar mão do recurso de trazer para o espaço cinematográfico personagens de experiências amorosas passadas, as quais confidenciam um ao outro – e isto se faz suficiente para ilustrar a química que se instaura entre o casal.

Estes momentos de desaceleração, no entanto, são como ilhas. No geral, o trabalho de câmera e a montagem se unem para estabelecer uma atmosfera de pressa e eloquência, efeito que ganha maior dimensão sequências de protesto – com destaque para aquela que acontece no laboratório Melton Pharm, em que, para além de uma tensão elétrica muito palpável, a urgência feroz da causa se faz representada visualmente pela cor vermelha. O tom e o ritmo, como elementos fílmicos, se fundem neste filme, fazendo complemento à sua proposta estrutural: a decisão de imergir o espectador nos processos da Act Up gradualmente leva a um cansaço, pela intensidade e repetição, mas este é um efeito necessário por justamente transmitir a natureza da luta do grupo – e as cenas na balada funcionam como interlúdios, em que aqueles jovens podem relaxar e se divertir.

Eis que, em sua hora final, a narrativa toma uma mudança de rumo, trazendo um triste componente de iminência: se antes, durante as reuniões, Sean se mostrava participativo e opinativo, agora ele permanece quieto, absorto nos procedimentos médicos pelos quais está tendo que passar. É o processo em que a debilitação fisiológica passa a superar e oprimir a objetividade ideológica, tirando seu sentido – e não é à toa que ele deixa a reunião, enfurecido. Se a atuação de Biscayart já impressionava pela autenticidade, ela toma outro nível de entrega no último ato do filme – e Campillo merece elogios por uma sensível condução destas cenas, fazendo com que seu conteúdo de particular densidade dramática ressoe em conjunto com o todo.

Bastante abrangente ao representar a atuação do Act Up em três frentes – governo, setor privado (laboratórios) e sociedade (na desconstrução do preconceito e conscientização) – o filme traz um plano marcante, em seus minutos finais, com um enquadramento conjunto de dois cômodos de um apartamento, que sumariza, de modo um tanto chocante, a importância do ativismo da AIDS naquela época: a necessidade trazida por um contexto maior fazendo com que a consternação individual seja convertida em mais combustível para a mobilização coletiva. 120 Batimentos por Minuto é, em suma, um filme sobre o barulho necessário para trazer à tona um angustiante silêncio.

Cotação: 4,5 estrelas em 5

12 de janeiro de 2018

 

BAFTA 2018 – Indicações

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Foram anunciados hoje os indicados ao BAFTA, a premiação da Academia Britânica. É a última grande parada antes das indicações ao Oscar e que nos traz a iluminação final acerca dos prováveis indicados a este. Vamos dar uma olhada:

MELHOR FILME

Me Chame Pelo Seu Nome

O Destino de uma Nação

Dunkirk

A Forma da Água

Três Anúncios para um Crime

Corra! e Lady Bird de fora. O Destino de uma Nação, sendo o filme mais inerentemente britânico do ano, sobre uma das figuras britânicas mais famosa da história, não poderia faltar.

MELHOR DIREÇÃO

Denis Villeneuve (Blade Runner 2049)

Luca Guadagnino (Me Chame Pelo Seu Nome)

Christopher Nolan (Dunkirk)

Guillermo del Toro (A Forma da Água)

Martin McDonagh (Três Anúncios para um Crime)

Novamente, nada de Peele ou Gerwig. A novidade aqui é Villeneuve.

MELHOR ATRIZ

Annette Bening (Film Stars Don’t Die in Liverpool)

Frances McDormand (Três Anúncios para um Crime)

Margot Robbie (Eu, Tonya)

Sally Hawkins (A Forma da Água)

Saoirse Ronan (Lady Bird – A Hora de Voar)

Uau, Judi Dench esnobada. Streep também – e não ouso (ainda) prever que fique de fora do Oscar, mas The Post anda bem fraco na temporada. A aparição de Bening não é tão surpreendente quanto possa parecer, tendo em vista que a Associação de Críticos de Londres também a indicou. E se alguém ainda achava que Robbie podia correr o risco de ser ignorada pela Academia, esqueça.

MELHOR ATOR

Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)

Daniel Kaluuya (Corra!)

Gary Oldman (O Destino de uma Nação)

Jamie Bell (Film Stars Don’t Die in Liverpool)

Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)

James Franco é a omissão aqui – e, juntando isso aos tweets que surgiram após o Globo de Ouro, me leva a crer que ele se tornou vulnerável. A indicação de Bell é coerente, considerando que ele foi tão aclamado quanto Bening nas críticas do filme.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Allison Janney (Eu, Tonya)

Kristin Scott Thomas (O Destino de uma Nação)

Laurie Metcalf (Lady Bird – A Hora de Voar)

Lesley Manville (Trama Fantasma)

Octavia Spencer (A Forma da Água)

Thomas e Manville eram esperadas aqui, pelo prestígio britânico – e, embora a primeira seja Clementine Churchill, de carona no veículo do provável vencedor em Melhor Ator, é a segunda quem tem mais chances de aparecer no Oscar. Spencer ganha forças, após a esnobada do SAG.

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Christopher Plummer (Todo o Dinheiro do Mundo)

Hugh Grant (As Aventuras de Paddington 2)

Sam Rockwell (Três Anúncios para um Crime)

Willem Dafoe (Projeto Flórida)

Woody Harrelson (Três Anúncios para um Crime)

Grant era relativamente esperado aqui: famoso ator britânico, bastante elogiado por sua performance, em um filme popular. Plummer definitivamente se solidifica para o Oscar. A exclusão de Richard Jenkins é curiosa, tendo em vista que A Forma da Água foi amplamente amado, mas não creio que seja extremamente preocupante para suas chances. Agora a maior surpresa foi a omissão de ambos os atores de Me Chame Pelo Seu Nome: eu não necessariamente esperava que tanto Armie Hammer quanto Michael Stuhlbarg conseguissem entrar, mas pelo menos um deles sim (especialmente o segundo). Ainda por cima, Três Anúncios conseguiu a indicação de seus dois atores (situação que já havia acontecido no SAG), o que é mais um sinal da força do filme.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Corra!

Eu, Tonya

Lady Bird – A Hora de Voar

A Forma da Água

Três Anúncios para um Crime

A maré tem ficado cada vez melhor para Eu, Tonya; êxito nas indicações de Sindicatos, agora aqui no BAFTA….

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Me Chame Pelo Seu Nome

The Death of Stalin

Film Stars Don’t Die in Liverpool

A Grande Jogada

As Aventuras de Paddington 2

Essa categoria está notavelmente fraca de filmes de peso este ano. Me Chame Pelo Seu Nome é o único concorrente “obrigatório”, então o BAFTA preencheu o resto da lista livremente – e, destes outros, apenas A Grande Jogada deve ir para o Oscar.

O restante das categorias pode ser conferido aqui: http://www.bafta.org/film/awards/ee-british-academy-film-awards-in-2018

A cerimônia do BAFTA acontecerá no dia 18 de fevereiro.

 

 

Globo de Ouro 2018 – Análise dos resultados

75th Annual Golden Globe Awards - Show

Ontem tivemos uma cerimônia bastante singular, o que não poderia ser diferente tendo em vista os acontecimentos que marcaram a indústria cinematográfica no ano passado. O tom engajado e edificante da voz feminina marcou a noite.

Quero lembrar que os resultados do Globo de Ouro não tem uma ligação direta com os do Oscar. As premiações do SAG (Sindicato dos Atores) e do BAFTA (Academia Britânica) são as que realmente importam no sentido de previsão do Oscar, porque, assim como este, são prêmios da indústria – e, portanto, há um cruzamento de votantes. O Globo de Ouro é um prêmio dado por um grupo jornalistas, do mundo todo, que atua em Hollywood – e nenhum deles vota no Oscar. Mas, por ser uma premiação tradicional, e a primeira televisionada da temporada, ela serve como um termômetro informal.

Vamos lá. Confesso que fiquei um pouco surpreso, porque, tendo em vista a indefinição da maioria das categorias, eu esperava algumas zebras, mas não foi o que aconteceu.

A única categoria categoria em que eu posso dizer que realmente apostei mal foi Trilha Sonora: nenhum dos meus palpites (Dunkirk e Trama Fantasma) vingou e o prêmio foi para o sempre prolífico Alexandre Desplat, por A Forma da Água. Também errei a outra categoria aural, Canção Original, mas esta, quando não há um favorito claro (como “City of Stars” ou “Skyfall” em anos passados), é sempre um tiro no escuro mesmo – e, ao escolher a canção de O Rei do Show, a HFPA só fez confirmar seu histórico apreço por musicais. Filme Estrangeiro foi outra que não acertei, mas disse que todos os cinco tinham chance – sobressaiu-se o alemão Em Pedaços.

As vitórias de Três Anúncios para um Crime em Filme Drama e de Frances McDormand em Atriz Drama eram minhas alternativas, mas, como eu ressaltei, estava muito fluido entre estes e o combo A Forma da Água + Sally Hawkins. As outras nove categorias eu apostei corretamente: Gary Oldman, Saoirse Ronan, James Franco, Allison Janney, Sam Rockwell, Guillermo del Toro, Lady Bird em Filme Comédia, Três Anúncios em Roteiro e Viva – A Vida É uma Festa em Animação.

Como ficam as categorias:

ATOR COADJUVANTE – Rockwell fica numa posição favorável. Mesmo não vencendo o BFCA (que pode ir com Willem Dafoe, o mais querido da crítica) e o BAFTA (que tem Dafoe e Michael Stuhlbarg como opções viáveis também), ele tem o SAG garantido, e a força de Três Anúncios o levará como favorito ao Oscar.

ATRIZ COADJUVANTE – Aqui acho que podemos ter uma disputa, ou até mesmo Metcalf recuperar a dianteira. Janney ganhou o Globo, mas temos que lembrar que eles tinham  as categorias de Filme e Atriz Comédia/Musical para recompensar Lady Bird. Metcalf deve levar o BFCA (pelo mesmo motivo de Dafoe), mas o SAG e o BAFTA são imprevisíveis. Ambas tem prós e contras que se igualam: Janney é mais ativa e popular no meio cinematográfico e tem o papel mais expositivo; Metcalf tem um filme bem mais forte e suporte crítico maciço.

ATOR – Oldman está com o Oscar garantido. Chalamet precisaria vencer aqui para ganhar momento e representar algum empecilho. Oldman facilmente ganhará o SAG e o BAFTA; junta-se a isso os fatores ator venerado, figura histórica, transformação – bingo, Oscar.

ATRIZ – É muito legal ver que os três filmes mais bem posicionados na corrida (Três Anúncios, Lady Bird e A Forma da Água) são protagonizados por mulheres. Frances McDormand é claramente muito querida na indústria (como se pode notar pela reação a sua vitória ontem), mas vale lembrar que ela nunca tinha ganhado um Globo de Ouro – e isso pode ter sido um fator que a ajudou. Hawkins é a favorita para o BAFTA, mas ela entra na estatística de que, em 16 anos, nenhuma atriz levou o Oscar sem ter vencido o Globo de Ouro (seja em Drama ou Comédia). Ronan tem chances de ganhar o SAG, e ela tem o perfil de jovem starlet de prestígio, com duas indicações acumuladas na Academia (e nunca ganhou, ao contrário de McDormand). Mas se McDormand levar o SAG, ela se torna favorita absoluta.

DIRETOR – A não ser que Nolan vença o DGA (Sindicato dos Diretores), del Toro se manterá como grande favorito ao Oscar.

FILME – Três Anúncios vs. Lady Bird. Embora o primeiro tenha um perfil mais típico de vencedor de Melhor Filme, a narrativa do segundo, de ser um filme dirigido por uma mulher e com uma protagonista feminina, especialmente após o ano que se passou, pode levá-lo ao topo do pódio. O PGA (Sindicato dos Produtores) nos dirá.

 

 

 

Globo de Ouro 2018 – Previsões

Hoje, logo mais, acontece a 75ª cerimônia dos Globos de Ouro, o prêmio dado pela Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood (HFPA). Então vamos às previsões!

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Preciso dizer que este é um ano atípico, em que praticamente nenhuma categoria tem um favorito disparado, geralmente havendo dois ou três candidatos plausíveis para levar o prêmio. Se por um lado, isso deixa as previsões mais difíceis, por outro deixa a cerimônia mais excitante.

MELHOR FILME – DRAMA

Aposta: A Forma da Água

Alternativa: Três Anúncios para um Crime

Baseando-se no número de indicações recebidas, estes dois foram os filmes mais apreciados pela HFPA e, portanto, os favoritos. Mas é impossível vislumbrar quem está na frente.

MELHOR ATRIZ – DRAMA

Aposta: Sally Hawkins (A Forma da Água)

Alternativa: Frances McDormand (Três Anúncios para um Crime)

Assim como na categoria anterior, eu poderia perfeitamente inverter a aposta e a alternativa. Essa é a sétima indicação de McDormand e ela nunca ganhou; seria uma boa oportunidade para recompensá-la, especialmente com um filme forte. Mas tenho uma suspeita de que a performance de Hawkins pode ter gerado maior conexão com os votantes. Meryl Streep também não deve ser subestimada.

MELHOR ATOR – DRAMA

Aposta: Gary Oldman (O Destino de uma Nação)

Alternativa: Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)

Há uma questão sobre Oldman ter falado mal do Globo de Ouro no passado, o que poderia atrapalhá-lo, mas, aparentemente, isso está superado. Chalamet é uma possibilidade real; além de seu filme estar indicado na categoria principal (e o de Oldman não), seria uma escolha considerada mais cool (ecos de Isabelle Huppert ano passado). Mas acho que prevalecerá a lógica de que Chalamet terá muitas oportunidades no futuro, enquanto Oldman é um veterano aclamado cuja hora de ser recompensado chegou.

MELHOR FILME – COMÉDIA/MUSICAL

Aposta: Lady Bird – A Hora de Voar

Alternativa: Corra!

Nas indicações, ambos foram esnobados em Melhor Direção, mas Corra! foi esnobado também em Melhor Roteiro, categoria em que totalmente se esperava que entrasse. Isso é uma pista de que a HFPA não foi tão fã do filme. Portanto, Lady Bird!

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL

Aposta: Saoirse Ronan (Lady Bird – A Hora de Voar)

Alternativa: Margot Robbie (Eu, Tonya)

Robbie tem uma personagem/performance que pode ressonar muito bem com o corpo de votantes (pessoa real, desglamourização, etc). Mas Ronan tem o filme mais forte e maior prestígio acumulado como atriz.

MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL

Aposta: James Franco (O Artista do Disastre)

Alternativa: Daniel Kaluuya (Corra!)

Mesmo aparentemente não tendo gostado tanto de Corra!, a HFPA pode querer recompensar o filme – que é a sensação da temporada – de algum modo, e aqui seria o lugar. Mas James Franco como Tommy Wiseau, e criticamente aclamado, é irresistível para o Globo de Ouro.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Aposta: Allison Janney (Eu, Tonya)

Alternativa: Laurie Metcalf (Lady Bird – A Hora de Voar)

Aqui estou arriscando. Metcalf tem varrido os prêmios de crítica e é considerada a favorita natural, mas algo me diz que a HFPA vai querer premiar Eu, Tonya em algum lugar, e Janney é uma veterana popular (tem 5 indicações anteriores, em categorias de TV, mas nunca ganhou) com um personagem mais chamativo – o que Globo gosta.

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Aposta: Sam Rockwell (Três Anúncios para um Crime)

Alternativa: Christopher Plummer (Todo o Dinheiro do Mundo)

Willem Dafoe, o favorito da crítica, também está no páreo. Mas não tive como não colocar Plummer: a HFPA claramente gostou de seu filme, e sua narrativa (de ter sido chamado às vésperas do lançamento para refilmar as cenas de Kevin Spacey) pode ser muito sedutora para os votantes. Ainda assim, Rockwell me parece ter tudo a seu favor.

MELHOR DIRETOR

Aposta: Guillermo del Toro (A Forma da Água)

Alternativa: Christopher Nolan (Dunkirk)

Dar o prêmio o Nolan seria uma coisa bem a cara do Globo de Ouro, mas se estou prevendo o filme de del Toro para ganhar Melhor Filme, não tenho porque não apostar nele aqui, ainda mais o filme tendo uma marca de direção tão forte. É muito improvável, mas eu não ficaria chocado caso desse zebra e Ridley Scott ganhasse, pela mesma narrativa que eu notei para Plummer na previsão anterior.

MELHOR ROTEIRO

Aposta: Três Anúncios para um Crime

Alternativa: Lady Bird – A Hora de Voar

Categoria difícil de prever. Aqui eu aplico a lógica do “espalhar o ouro”. Como Greta Gerwig já vai, provavelmente, subir no palco para buscar o Globo de Filme Comédia/Musical, creio que vão usar esse espaço para reforçar seu apreço por Três Anúncios. Mas eu não descartaria aqui um prêmio de consolação para The Post – A Guerra Secreta.

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO

Aposta: Viva – A Vida É uma Festa

Alternativa: Com Amor, Van Gogh

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Aposta: Uma Mulher Fantástica (Chile)

Alternativa: Primeiro, Mataram o Meu Pai (Camboja)

Premiar o filme de Angelina Jolie seria uma coisa bem Globo de Ouro, talvez até óbvia demais nesse sentido. Por isso, vou com o filme de Sebastián Lelio, que me parece o mais unânime dos indicados. Mas acho que todos os cinco tem alguma chance.

MELHOR TRILHA SONORA

Aposta: Dunkirk

Alternativa: Trama Fantasma

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

Aposta: “Mighty River” (Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississippi)

Alternativa: “Remember Me” (Viva – A Vida É uma Festa)

 

Amanhã comento os resultados. Boa cerimônia!!

 

 

 

 

 

Crítica: The Square – A Arte da Discórdia (The Square)

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2017. Direção: Ruben Östlund.

Se eu colocasse sua bolsa ali, isso poderia ser considerado arte?”, pergunta, retoricamente, o curador do museu à jornalista que o entrevista, logo no início deste The Square. Essa questão, que é e sempre foi fonte de interminável debate, é apenas a ponta do iceberg de diversas ideias que o filme busca tocar – e sua colocação no início da projeção serve como um aperitivo provocativo para o que está por vir. O diretor sueco Ruben Östlund nos leva por uma experiência tonalmente ousada, tematicamente ambiciosa – por vezes auto-consciente demais disso – cujo efeito não é preciso, mas certamente singular.

The Square não se guia por um plot rígido, mas segue o personagem Christian (Claes Bang), o já citado curador de um museu de arte moderna e contemporânea, que está às vésperas de uma exposição chamada justamente The Square. Paralelamente, Christian é acometido por um evento – o roubo de seu celular e carteira, que acontecem de maneira bizarra – ao qual não daríamos muito crédito, mas que acaba por se desenrolar em várias consequências para o personagem. Mas The Square é um filme muito auto-confiante e opta por não atrelar seu desenvolvimento exclusivamente em função destas linhas narrativas. Assim, o filme segue uma estrutura bem solta, ainda que procure criar elementos de ligação, mesmo que banais: veja, por exemplo, como, algum tempo após uma cena que envolve constantes interrupções de um homem com Síndrome de Tourette a uma conferência – a qual parecia totalmente desconectada – a jornalista (Elisabeth Moss) replica os maneirismos do homem para estabelecer uma conexão com Christian.

E se o filme esbanja auto-importância, o mesmo pode ser dito de seu protagonista, o charmoso e passivo-agressivo Christian, a quem seu intérprete Claes Bang consegue injetar tridimensionalidade; veja como sua pose e intelectualidade são desconstruídas inacreditavelmente quando ele adere a um plano aparentemente estúpido para tentar reaver seus pertences e, absorvido nisso, acaba sendo negligente com um aspecto importante do trabalho – e aqui, quando o absurdo da vida real toma forma, uma justaposição com a faceta fantasiosa da arte se faz. E se a personagem de Elisabeth Moss é usada basicamente como ferramenta para ressaltar características de Christian – tendo a cena com uma discussão sobre uma camisinha como auge –, o artista vivido por Dominic West parece estar ali apenas para cumprir a cota do artista excêntrico, embora isso não deixe de servir como um apontamento crítico.

Falando em crítica, o filme parece sempre carregar um tom cínico-cáustico em relação ao que mostra. Usando uma estética clean, de câmera estável e majoritariamente parada, The Square procura evocar as facetas incômodas da indústria da arte e para tal opta por incorporar uma essência esnobe em sua realização. Por esse lado, o filme tem um quê metalinguístico; veja como retrata por várias vezes pessoas em situação de miséria, como se quisesse endereçar a desigualdade social, mas o faz de modo forçado e desfocado – espelhando a falsa importância que os personagens do filme atribuem à mesma, como exprime a cena em que Christian grava um vídeo, indo da articulação consciente a uma verborragia indulgente.

Não há como não dedicar um espaço especial à cena mais memorável do filme – e quem assisti-lo vai saber de imediato qual é. Fortemente encaixada no contexto da obra, mas vagamente conectada em sua estrutura imediata, acompanhamos em tempo real e em sua totalidade uma intervenção de performance-arte durante um jantar de elite no museu, executada com excelência pelo ator Terry Notary como um homem-animal selvagem. Embora não necessariamente apresente um conceito original, é intrigante acompanhar a progressão gradual que ocorre na sequência; não da atuação do performer, mas da reação dos presentes – é uma cena, que para além da visceralidade de sua realização, sumariza todos os conceitos do filme que entrelaçam arte e realidade: medo, choque, limite, extremo. Certamente um dos melhores momentos cinemáticos do ano.

Exibindo sua verve satírica com a trama do vídeo promocional destinado a promover a exposição The Square, o filme consegue fazer um entrelaço (ainda que sem a profundidade merecida) com uma situação muito familiar à contemporaneidade, esbarrando em dois tópicos específicos: a controvérsia a serviço da publicidade e a auto-censura. Trazendo o absurdo como acessório ocasional, é curioso ver a franqueza com que um garoto ultrajado promete fazer da vida de Christian um caos – sendo que o filme é recheado de vários micro-caos – e seu modo de confronto escancarado faz um desconfortante contraponto a um comportamento de Christian anterior. Pensando bem, a estrutura de The Square funciona como uma própria galeria de arte contemporânea, com várias seções que são ligadas pelo abstrato. A obra é até coerente em seu ar pretensioso – já que seu objeto, em tese, também o é -, mas  peca ao endereçar mais do que consegue atingir. Ainda assim, The Square junta um humor embaraçoso a um impacto de estranhamento que não tem como deixar o espectador indiferente.

Cotação: 3,5 estrelas em 5

6 de janeiro de 2018

Crítica: Roda Gigante (Wonder Wheel)

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2017. Direção: Woody Allen.

Coney Island, anos 50. Sol, praia, parque, muita cor, muita luz. Aparentemente um paraíso de alegria e diversão. Para Ginny (Kate Winslet), nossa protagonista, que ali vive, é uma “terra da fantasia brega e barulhenta”. Chegando aos 40 anos, trabalhando como garçonete, casada com o grosseiro operador de carrossel Humpty (Jim Belushi) e mãe (de um casamento anterior) de um garoto piromaníaco, Ginny mal consegue esconder sua frustração com a vida, a qual frequentemente se converte em crises de enxaqueca. É a deixa certa para ela se envolver com Mickey (Justin Timberlake), atraente salva-vidas da praia. Eis que entra em cena Carolina (Juno Temple), a filha de Humpty que está sendo perseguida pelo ex-marido mafioso.

Mas Mickey não é só um personagem dessa história, é também seu autor. Sim, Woody Allen coloca o personagem de Justin Timberlake como um arauto da trama, numa mistura de representante do realizador (o que não é novidade na filmografia de Allen) e chave de ignição do jogo metalinguístico a que o filme se pretende. Assim, Mickey, além de trabalhar no posto 5 da praia, é também aspirante a dramaturgo – e o que vamos assistir é sua peça. Tomando a liberdade de quebrar a quarta parede, ele logo nos conta que gosta de um bom melodrama. E ele não está blefando.

Leva um pouco de tempo para nos acostumarmos à proposta narrativa. A cena, por exemplo, logo no início da projeção, na casa de Ginny e Humpty, em que este descobre que a filha está de volta, é modulada na artificialidade, com verborragia e certa redundância nos diálogos. A própria casa, com seu interior mais soturno, sendo afogada, através das janelas, pelas luzes de neon do parque, lembra um cenário teatral – e por diversas vezes, durante o filme, mesmo quando a cena se passava numa externa, me peguei reconfigurando-a mentalmente para um palco. Mas essa linguagem afetada deixa de causar estranhamento a partir do momento em que percebemos que é o habitat natural destes personagens, e ideal para que esta história se discorra.

Ginny é uma personagem complexa. Ela é trágica, e não seria preciso que Mickey o dissesse para que pudéssemos perceber; desde o primeiro momento, Winslet evoca o desespero interno dessa mulher, e as revelações graduais acerca de seu passado só fomentam esse perfil. No dilema em que se encontra, ela própria sabe que é de se esperar uma fatalidade no seu caminho. Mas Ginny é passional, e, como se não bastasse, é também atriz – fator que corrobora para a arquitetura de camadas do filme: Ginny prende-se às lembranças do passado de atriz, proclama-se atriz na vida presente (quando diz que ser garçonete é apenas um papel que ela está interpretando) e é personagem na peça de Mickey, além de amante do próprio Mickey – que começa a se encantar por Carolina. Mickey está dentro e fora da trama, e um momento que exemplifica esse limiar, também explicitando seu caráter racional, se dá quando ele consulta um professor de filosofia para ajudá-lo a se decidir entre a madrasta e a enteada – uma decisão, para ele, tão dramatúrgica quanto pessoal. 

Carolina é vivida por Juno Temple como uma moça que, mesmo estando numa enrascada, mostra um temperamento suave, amistoso e ocasionalmente doce, num grande contraponto ao turbilhão que é Ginny – e as interações entre as duas personagens estão entre os melhores momentos do filme. Ainda assim, Carolina não deixa de revelar um fundo trágico também: “todos vão morrer um dia”, diz a Mickey, justificando sua tranquilidade perante o fato de estar sendo procurada por gângsters. Já Humpty é um caso curioso: aos poucos vai se percebendo que, mesmo altamente instável, ele é menos ameaçador do que parecia à princípio; e isso, ao invés de diluir o dilema da protagonista, acaba reforçando-o. 

É impossível não citar o diretor de fotografia Vittorio Storaro, cujo trabalho aqui é fundamental na evocação da atmosfera cênica. Usando cores muito vivas, o veterano cria uma Coney Island intensamente onírica, a atmosfera ideal para acolher o melodrama trágico que é este Roda Gigante. É uma fotografia propositalmente intrusiva, e note como abusa-se do efeito da luz do sol refletindo com saturação nos cabelos ruivos de Winslet; ou como, em certos enquadramentos envolvendo Ginny, as luzes que atingem-na mudam de cor sequencialmente, evocando uma roda gigante de estados emocionais. Por fim, Storaro merece créditos por manter a essência cinematográfica da obra, ao usar frequente câmera em movimento e planos mais fechados em momentos cruciais – e, nesse ponto, a estética flerta com os melodramas da era de ouro de Hollywood.

O roteiro traz momentos expositivos, sendo que os mais notáveis chegam na forma de monólogos de Ginny, mas estes, com a solidez da interpretação de Winslet, ganham organicidade dentro daquele universo. A atriz faz com que consigamos adentrar o tempo dramático da personagem, e o desenrolar dos acontecimentos torna-se vívido – e mesmo o que parece previsível ganha um ar de imprevisibilidade a partir do componente trágico que Ginny emana. O relato da personagem sobre seu passado, embaixo do cais, é particularmente poderoso, bem como a cena que acontece após o destino ter levado Ginny a fazer uma escolha crucial – um momento catártico em que a personagem, alcoolizada e envolta em fumaça, emula Blanche DeBois.

Deixando à parte, na análise, as semelhanças da trama com as controvérsias da vida pessoal de Allen, o filme traz ecos de Mildred Pierce (que a própria Winslet já interpretou na TV), e pega emprestado dos universos de Eugene O’Neill (que é referenciado no filme) e Tennessee Williams, no que parece querer fazer uma homenagem a esta vertente do teatro americano – e a história de Wonder Wheel poderia, de fato, perfeitamente pertencer a este cânone. Ao colocá-la, no entanto, como parte de um exercício de linguagem, aliada a um tratamento visual consonante, tem-se um valoroso aproveitamento cinematográfico da mesma. O filme não é impecável – um pouco mais de tratamento o beneficiaria – mas certamente funciona bem em sua ambição.

Cotação: 4 estrelas em 5

4 de janeiro de 2018

Indicações ao SAG e análise da corrida para o Oscar

Quando é chegada esta época do ano, as previsões para o Oscar passam a tomar uma delineação muito sólida, porque temos as indicações dos chamados precursores para nos basear. Os prêmios de crítica dão uma base, mas os indicadores realmente fortes são estas premiações, cujas cerimônias são televisionadas: o Globo de Ouro (da Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood), o SAG (do Sindicato dos Atores) e o BAFTA (da Acadêmia Britânica).

Na segunda saíram as indicações para o Globo de Ouro e hoje (13/12) foram anunciadas as indicações para o SAG. Então, o BAFTA ainda vai clarear algumas coisas, mas já estamos a 2/3 das previsões finais.

Vamos ao SAG. É importante ressaltar que dois filmes não foram vistos o suficiente, por conta de seus lançamentos tardios, e portanto não figuraram na lista. Eles são The Post e Phantom Thread.

MELHOR ELENCO

The Big Sick

Get Out

Lady Bird

Mudbound

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

O único filme a ganhar Melhor Filme no Oscar sem ter sido indicado nesta categoria foi Coração Valente, há 22 anos – ou seja, é uma estatística forte. Isso certamente é um baque para as chances de vitória de The Shape of Water (aqui esnobado) em Melhor Filme. Por outro lado, Get Out, Lady Bird e Three Billboards consolidam-se como os favoritos para o prêmio principal da Academia. Mudbound era bem esperado aqui, por ser um filme de atores – e sua estrutura de protagonismo fragmentado leva a muitos destaques no elenco.

MELHOR ATOR

Timothée Chalamet (Call Me by Your Name)

James Franco (The Disaster Artist)

Daniel Kaluuya (Get Out)

Gary Oldman (Darkest Hour)

Denzel Washington (Roman J. Israel, Esq.)

Aqui dois competidores ficaram de fora por serem dos filmes não vistos a tempo, Daniel Day-Lewis (Phantom Thread) e Tom Hanks (The Post). Portanto, para além dos três consolidados, Oldman, Chalamet e Franco – tínhamos duas vagas. Kaluuya era a opção natural para a primeira. Para a segunda, fizeram como o Globo de Ouro e foram de Washington. Isso quer dizer que as chances de Jake Gyllenhaal (Stronger) para o Oscar estão definitivamente nulas agora.

Washington é o típico concorrente que é indicado ao Globo e ao SAG, mas que sabe-se que não tem forças para chegar ao Oscar. Agora forma-se um dilema. Como já dito, Oldman, Chalamet e Franco estão dentro. Kaluuya está se tornando um concorrente extremamente sólido, aparecendo em tudo e estando num filme Top 3. Mas Day-Lewis e Hanks também são difíceis de cortar. O primeiro até poderia ser esnobado caso a Academia realmente odiasse Phantom Thread, mas não parece ser o caso e existe a narrativa de este ser o último papel de Day-Lewis no cinema. Hanks eu até consigo ver sendo ignorado, mas existe a questão de que, nos últimos anos, aconteceu por quatro vezes de ele ganhar tração para o Oscar e não ser indicado – e The Post parece ser a oportunidade perfeita para a Academia “se retratar” disso.

MELHOR ATRIZ

Judi Dench (Victoria and Abdul)

Sally Hawkins (The Shape of Water)

Frances McDormand (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

Margot Robbie (I, Tonya)

Saoirse Ronan (Lady Bird)

Aqui Meryl Streep (The Post) não poderia ter sido indicada pela questão do filme não ter sido visto, portanto sua vaga estava livre. Judi Dench pegou, o que é um tchau, tchau para as chances de Jessica Chastain (Molly’s Game).

Mas o fato é que, nesta categoria, formou-se um quinteto quase impenetrável. É claro que Streep será indicada ao Oscar – se ela foi indicada por August: Osage County e Florence Foster Jenkins em anos bem competitivos, ela não vai deixar de ser indicada por The Post, um Best Picture nominee garantido. As outras quatro são as que estão sendo indicadas em todo lugar: Hawkins, McDormand, Robbie, Ronan. A questão é que Judi Dench vai ser indicada ao BAFTA e, com isso, ela vai derrubar alguém. Pode ser Streep, mas pode também ser Robbie, e neste caso a moça chegaria ao dia das indicações do Oscar disputando dente a dente a quinta vaga com Dench. Embora Robbie tenha o filme mais forte, Dench é realeza da atuação. Ainda assim, o Top 5 padrão parece imbatível, especialmente porque o ano passado nos ensinou que, quando há opção remotamente viável, a Academia não deixa de indicar uma novata em Melhor Atriz – e Robbie se encaixa perfeitamente neste perfil.

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Steve Carell (Battle of the Sexes)

Willem Dafoe (The Florida Project)

Woody Harrelson (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

Richard Jenkins (The Shape of Water)

Sam Rockwell (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

Primeira coisa: A indicação de Carell é a típica menção fora da casinha que o SAG costuma fazer todo ano, e, apesar de ele ter sido indicado ao Globo de Ouro também (mas na categoria Ator Comédia/Musical), eu não o considero um concorrente sério. Segunda coisa: Richard Jenkins se solidifica na terceira posição. Terceira coisa: Harrelson tem pipocado discretamente em alguns prêmios crítica, mas esta indicação, junto à força de Three Billboards (que agora pleiteia seriamente a vitória em Melhor Filme) como um todo, o colocam definitivamente no jogo. Quarta coisa: A ausência de ambos os atores de Call Me by Your Name – Armie Hammer e Michael Stuhlbarg – surpreende, especialmente considerando o fato de que Three Billboards ganhou dupla indicação.

Então, Dafoe e Rockwell estão dentro com certeza. Jenkins ocupa solidamente a terceira posição, embora eu não descarte totalmente uma esnobada. Depois disso, a categoria surpreendentemente ficou mais imprevisível. Apesar de a onda não estar boa para Stuhlbarg, eu continuo com a firme sensação de que ele será indicado pela Academia – ele está muito presente este ano (estando nos elencos de Call Me by Your Name, The Shape of Water e The Post) e faz o perfil, meio como Michael Shannon ano passado, de ator respeitado que consegue a indicação apesar das ausências em precursores; mas o BAFTA será fundamental para ele, vale notar. A quinta vaga está abertíssima, e aqui entramos numa situação complicada. Os dois concorrentes mais próximos são Hammer e Harrelson, o que configuraria dupla indicação para um dos dois filmes. Three Billboards é o filme mais forte nesse momento, mas Hammer tem tido maior presença na temporada. Vale ressaltar que a última vez em que dois atores coadjuvantes foram indicados pelo mesmo filme foi em 1991, com Bugsy – e nem o vencedor de Melhor Filme há dois anos, Spotlight, conseguiu este feito. Os outros únicos que eu vejo com chance de indicação são Christopher Plummer (All the Money in the World) e Bob Odenkirk (The Post). O BAFTA certamente trará uma definição melhor para a categoria..

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Mary J. Blige (Mudbound)

Hong Chau (Downsizing)

Holly Hunter (The Big Sick)

Allison Janney (I, Tonya)

Laurie Metcalf (Lady Bird)

Quase igual ao Globo de Ouro, só com Hunter ocupando o lugar de Octavia Spencer (The Shape of Water). Interessante o fato de tanto Blige como Chau entrarem; achei que só uma das duas conseguiria. Acreditei que alguma performance abaixo do radar, como Melissa Leo (Novitiate) ou Catherine Keener (Get Out), poderia surpreender.

Num movimento contrário à categoria Ator Coadjuvante, que estava mais delineada e agora se abriu, Atriz Coadjuvante, que estava totalmente imprevisível, ficou mais fechada depois de reveladas as indicações do Globo de Ouro e do SAG. Para além de Janney e Metcalf, que já estão cravadas, temos 3 vagas para 4 concorrentes. O difícil é fazer um ranking de probabilidade entre elas. Hunter tem sustentado buzz por todo o ano, está num filme popular, que será indicado a Melhor Roteiro e tem chances em Melhor Filme também. Chau é praticamente uma desconhecida e está num filme sem buzz, por isso o fato de ela ter conseguido as indicações no GG e no SAG dizem muito a respeito da paixão que sua performance gera. Spencer está no filme mais forte, e sua desvantagem é justamente que ela depende da força do filme com a Academia. Contra Blige pesa o desdém da Academia pela Netflix, e a seu favor tem o fato de ser o destaque de um elenco forte de um filme muito cara da Academia. No entanto, tem uma outra concorrente quase batendo à porta, querendo entrar também, e ela é Lesley Manville (Phantom Thread) – que, muito provavelmente, será indicada ao BAFTA.

Crítica: Lucky

Lucky_(2017_film)

2017. Direção: John Carroll Lynch.

Abre-se o plano numa paisagem desértica ao som de uma gaita; já sabemos que é mais um dia que começa na vida de Lucky, personagem central deste filme. Lucky é um homem de humor fechado que mora sozinho, às margens de uma pequena cidade americana, e que, apesar de estar nos seus 90 anos, ainda fuma vigorosamente. Na verdade, ele leva a vida de maneira absolutamente normal, como se a idade que tem nada representasse. Ainda assim, de modo calado, a iminência da morte se faz presente – e não deixa de ser irônico que, na vida real, ela tenha se materializado para seu ator, o lendário Harry Dean Stanton, que faleceu em setembro deste ano.

Lucky, o filme, não possui um plot, um arco dramático; ao invés disso, traz como recorte a banalidade do dia-a-dia do personagem-título, e assim podemos vê-lo fazer seus exercícios matinais, tomar seu copo de leite, fazer palavras cruzadas no café, tomar sua Bloody Mary no bar, voltar para casa e assistir a game shows. Assim, o filme investe numa estrutura repetitiva, que, justamente ao nos permitir essa observação do simples e do corriqueiro, acaba levantando uma reflexão sobre questões da existência: velhice, longevidade e o próprio propósito da vida.

Embora seja centrado em Lucky, o filme não busca ser um contundente estudo de personagem do ponto de vista psicológico, ficando claro que o realizador toma o protagonista mais para ilustrar um tema – e perceba, por exemplo, como o filme não faz questão de explorar o passado do personagem, só colocando uma informação maior nesse sentido já perto do fim da projeção. Isso não quer dizer, no entanto, que não haja complexidade no personagem, pelo contrário. E aqui o mérito cabe a Dean Stanton, que consegue trazer muita humanidade em meio a todo o niilismo daquela figura – e é curioso notar suas contradições, como por exemplo, quando ele nega ao médico ser uma pessoa solitária, mas eventualmente recorre a um interlocutor imaginário pelo telefone em sua casa, ou quando faz um olhar de desdém ao ver um casal gay no café que frequenta, mas posteriormente discorre sobre sua admiração por Liberace.

O restante do elenco traz um complemento sólido a Stanton, como pessoas da cidade com quem Lucky interage. Tem destaque a presença de David Lynch, cujo personagem tem a convicção de deixar sua herança para seu amado cágado de estimação, mesmo este tendo sumido – e a reação de Lucky a esta situação é um momento em que o filme articula mais abertamente sua filosofia. É interessante constatar que, embora as caracterizações pudessem ter ido facilmente para o lado do excêntrico, a direção prefere mantê-las limpas e sem afetações – e o mesmo tratamento é dado ao ritmo dos diálogos. Isso se mostra em consonância com a proposição da obra de ser uma plataforma meditativa sobre a existência.

Apesar de ser um filme que se orgulha de contemplar o nada, Lucky não é nada acanhado no que concerne a fazer valer seus conceitos, e transfigura em Dean Stanton a reflexão do sentido de viver ante à inexorabilidade do fim – e, considerando isso tudo, é curioso pensar em como o apelido do protagonista (sortudo) se aplica a ele – ou mesmo se não tem significado algum.

Cotação: 4 estrelas em 5

12 de dezembro de 2017

Globo de Ouro 2018 – Indicados

Foram anunciados hoje (11/12) os indicados à 75ª cerimônia dos Globos de Ouro, a ser realizada no dia 7 de janeiro. Seguem aqui os indicados às categorias de cinema, com comentários:

MELHOR FILME – DRAMA:

Call Me by Your Name

Dunkirk

The Post

The Shape of Water

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Nenhuma surpresa aqui. Mas há o fato de que deixaram de fora um filme que está arrebentando nas premiações de críticos, The Florida Project.

MELHOR ATOR – DRAMA:

Timothée Chalamet (Call Me by Your Name)

Daniel Day-Lewis (Phantom Thread)

Tom Hanks (The Post)

Gary Oldman (Darkest Hour)

Denzel Washignton (Roman Israel, Esq.)

Os quatro primeiros eram totalmente esperados. Para a quinta vaga, Jake Gyllenhaal (Stronger) era a aposta mais comum, mas a aparição de Washington não surpreende, pois, embora o filme tenha flopado, o Globo de Ouro gosta de grandes nomes.

MELHOR ATRIZ – DRAMA:

Jessica Chastain (Molly’s Game)

Sally Hawkins (The Shape of Water)

Frances McDormand (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

Meryl Streep (The Post)

Michelle Williams (All the Money in the World)

Assim como na categoria anterior, quatro vagas estavam preenchidas – Chastain, Hawkins, McDormand e Streep – e uma estava em aberto. As apostas variavam entre Jennifer Lawrence (Mother!) e Kate Winslet (Wonder Wheel). A indicação de Williams vem na onda do estimo da HFPA por All the Money in the World.

MELHOR FILME – COMÉDIA ou MUSICAL

The Disaster Artist

Get Out

The Greatest Showman

I, Tonya

Lady Bird

The Big Sick é a grande omissão aqui. E a indicação a The Greatest Showman, que era o mais vulnerável dentre estes cinco, mostra que o HFPA não perdeu seu gosto por musicais.

MELHOR ATOR – COMÉDIA ou MUSICAL

Steve Carell (Battle of the Sexes)

Ansel Elgort (Baby Driver)

James Franco (The Disaster Artist)

Hugh Jackman (The Greatest Showman)

Daniel Kaluuya (Get Out)

A única certeza aqui era Franco, mas ainda assim acertei quatro na minha aposta. Eu tinha Kumail Nanjiani na vaga que ficou com Ansel Elgort, mas parece que o HFPA não gostou de The Big Sick mesmo.

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA ou MUSICAL

Judi Dench (Victoria and Abdul)

Helen Mirren (The Leisure Seeker)

Margot Robbie (I, Tonya)

Saoirse Ronan (Lady Bird)

Emma Stone (Battle Sexes)

Novamente o caso de quatro vagas fechadas (Dench, Robbie, Ronan e Stone) e uma aberta. Muito aberta, neste caso. Minha aposta era Salma Hayek (Beatriz at Dinner), mas Mirren seria minha segunda opção. Afinal, não é uma temporada de premiações se Mirren não pipocar por aí – para, no final, não ser indicada ao Oscar.

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Willem Dafoe (The Florida Project)

Armie Hammer (Call Me by Your Name)

Richard Jenkins (The Shape of Water)

Christopher Plummer (All the Money in the World)

Sam Rockwell (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

A indicação de Plummer é curiosa: o ator, que foi escalado às pressas para regravar as cenas de Kevin Spacey no filme, estava gravando até semana retrasada. Michael Stuhlbarg (Call Me by Your Name) é o esnobado aqui.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Mary J. Blige (Mudbound)

Hong Chau (Downsizing)

Allison Janney (I, Tonya)

Laurie Metcalf (Lady Bird)

Octavia Spencer (The Shape of Water)

Nesta categoria as únicas duas certezas são Janney e Metcalf. A terceira concorrente mais cotada, Holly Hunter (The Big Sick), foi esnobada aqui, confirmando novamente a indiferença da HFPA para com o filme. Eu tinha apostado em Blige, embora com pouca segurança, ao passo que a aparição de Spencer não surpreende, haja vista que a HFPA gostou muito de The Shape of Water. A indicação de Chau dá uma boa reativada em suas chances para o Oscar.

MELHOR DIREÇÃO

Guillermo del Toro (The Shape of Water)

Martin McDonagh (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

Christopher Nolan (Dunkirk)

Ridley Scott (All the Money in the World)

Steven Spielberg (The Post)

Esnobaram as três escolhas mais hips: Greta Gerwig, Jordan Peele e Luca Guadagnino. A indicação de Scott é uma surpresa.

MELHOR ROTEIRO

The Shape of Water

Lady Bird

The Post

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Molly’s Game

Get Out foi deixado de fora aqui, o que é provavelmente a maior surpresa de todo o quadro de indicações. A indicação de Molly’s Game só reforça o amor que a HFPA nutre para com Aaron Sorkin.

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO

The Boss Baby

The Breadwinner

Coco

Ferdinand

Loving Vincent

Nenhuma anomalia, embora eu tenha previsto The LEGO Batman Movie ao invés de The Boss Baby.

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

A Fantastic Woman – Chile

First They Killed My Father – Camboja

In the Fade – Alemanha

Loveless – Rússia

The Square – Suécia

Foxtrot esnobado.

MELHOR TRILHA SONORA

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

The Shape of Water

Phantom Thread

The Post

Dunkirk

Exatamente como o esperado.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

“Home” (Ferdinand)

“Mighty River” (Mudbound)

“Remember Me” (Coco)

“The Star” (The Star)

“This Is Me” (The Greatest Showman)

Essa categoria é sempre difícil de comentar, mas chama a atenção a exclusão de “Mystery of Love”, de Sufjan Stevens, para Call Me by Your Name.

Portanto, The Shape of Water foi o líder de indicações, com 7, seguido por The Post e Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, com 6 cada.

Às vésperas da cerimônia, farei uma postagem com minha previsão dos vencedores.